![]() |
Luckas Viana recebeu O GLOBO na última segunda-feira (25) — Foto: Edilson Dantas / Agência O GLOBO |
"Quando terminei a escola, comecei a trabalhar com telemarketing e, nas primeiras férias, em 2014, viajei para a Argentina. Foram 15 dias. Quando voltei, percebi que queria ter ficado por lá. Por quase dez anos, fui e voltei para a Argentina e, nesse período, trabalhei como entregador de comida por lá e comecei a estudar atuação em Buenos Aires.
Voltei para o Brasil em 2023. Logo surgiu um convite para trabalhar nas Filipinas. Um amigo me apresentou a uma agência que fazia a intermediação. Fui para lá trabalhar na área de atendimento ao cliente de plataformas de cassino, em uma cidade próxima à capital Manila. A maioria das empresas dessa área oferecem alojamento.
Foram quatro meses na empresa, depois passei alguns meses na Coreia do Sul. Em abril de 2024, voltei para as Filipinas, mas o país fechou as plataformas de cassino e todo mundo começou a perder o emprego.
Meu grande sonho era conhecer a Tailândia. Então, em setembro, viajei para Bangkok. Fiquei hospedado em um hostel, onde trabalhei como voluntário. Mas o dinheiro foi indo embora. Foi quando um amigo me mostrou um grupo no Telegram que divulgava vagas para atendimento ao cliente em cassinos, empresas cartão de crédito e e-commerces.
Eram mais de mil pessoas no grupo. Me apresentei, disse quantas línguas falava e três pessoas entraram em contato. Fiz entrevistas. Uma delas, com um homem que me disse que tinha uma vaga em Mae Sot, uma cidade afastada da capital da Tailândia. Era um contrato de seis meses, salário de US$1.500, acomodação e comida fornecidas pela empresa. O salário estava na média do mercado.
No dia 7 de outubro, me buscaram no hostel. Foi uma viagem de oito horas até Mae Sot, chegamos às 22h. Paramos em um posto de gasolina e o motorista me disse para descer e trocar de veículo. Foi tirando minhas coisas do carro e colocou em uma caminhonete, com outro motorista. Naquele momento, pensei que era protocolo, que esse segundo homem me levaria para a empresa.
Andamos por meia hora e paramos no meio do nada. Veio outro carro e o motorista me explicou, em um inglês básico, que eu teria de continuar em outra caminhonete. Eram 23h. Nesse momento me veio o alerta de que algo estava errado. Não entendia nada, tentava falar com o motorista e ele não me respondia.
Seguimos por uma estrada até um desvio para uma rua escura, que tinha casas de um lado e mata densa do outro. O carro parou e vieram três homens, que pegaram os meus pertences e seguiram com lanternas por um caminho pelo meio da mata até a beira de um rio.
Colocaram a bagagem em um barco e seguimos até a outra margem, onde vi guardas armados. Eles foram educados, falaram para não me preocupar. Entrei em mais um carro e, no trajeto, comecei a ver placas que não estavam em tailandês, mas em birmanês (a língua falada em Mianmar).
Eu ainda estava com o celular e fui avisando um amigo, o Rafael, sobre o que estava acontecendo. Troquei de carro mais uma vez e andamos por uma paisagem com muitas montanhas, bem no interior, até que chegamos a um portão.
Desci do carro, abriram minha mochila e furaram o meu dedo para um teste, que até hoje não sei para que servia. Foi quando entrei no lugar onde ficava a empresa. Era uma sala com 30 pessoas, parecia um escritório normal.
Apareceu o tradutor, que falou comigo em inglês. Ele me explicou que o trabalho era de um ano e meio. Respondi que não era isso que tinham me falado, que deveriam ser seis meses. O tradutor respondeu que eu não poderia usar o celular, que ninguém ali ficava com o aparelho. Nessa hora comecei a dizer que não queria ficar ali, que queria voltar. Tomei o celular da mão dele e liguei para o Rafael, o meu amigo. Mas logo vieram homens com armas de choque. Acho que me deram choque no rosto, porque comecei a sangrar. Depois apareceu um supervisor, então me acalmei e pedi apenas para fazer uma ligação.
Consegui falar com a minha mãe e com um amigo, que me perguntou se deveria chamar a polícia. Respondi que era melhor não, porque tinham armas e poderiam me matar. Depois, me levaram para um quarto em outro prédio. O lugar parecia uma prisão. Eram quatro beliches com colchões finos e privadas no chão.
Do lado de fora só se viam montanhas. Eram guardas por todo lado, nos corredores do dormitório, no local de trabalho. No escritório, me apresentaram um roteiro: para aplicar os golpes, eu teria de representar uma personagem, a Keke, para conversar com clientes pelo WhatsApp.
O roteiro dizia que a Keke era uma designer de moda que estava ganhando muito dinheiro. Eles nos davam várias fotos e vídeos falsos dela em lugares como restaurante e academia para enviarmos às vítimas. Em dado momento, ela pedia para o cliente criar uma conta em uma página, que a ajudaria a melhorar as vendas dela. O cliente compraria itens para ajudar a melhorar a classificação da loja dela e em troca receberia o dinheiro de volta, mais comissões. Aí começava o golpe.
Ou a gente convencia os clientes a nos darem dinheiro, ou nos puniam. A primeira punição que recebi foi ficar de pé por até três horas com um galão de água nas costas. Sempre que chegava um novato, eles eram simpáticos, tentavam mostrar um lugar bacana, repetiam sempre que éramos uma família. No meu quarto tinha um filipino e também pessoas da Etiópia.
Tínhamos acesso ao Telegram no trabalho, então mandava e apagava mensagens para um amigo. Até que um dia amigos mandaram uma mensagem para o meu chefe, que eles tinham o número, dizendo que minha mãe estava doente e que precisavam muito que eu voltasse.
Isso era outubro. Me levaram para uma sala e começaram a me bater com socos e tapas na cara. Colocam um papel na boca para que você não grite, também me espancaram com um pedaço de cano. Depois fiquei em uma prisão por cinco dias.
![]() |
Luckas durante a entrevista que narrou torturas em Mianmar — Foto: Edilson Dantas/ O GLOBO |
Em novembro, veio outra punição. Disseram que meu trabalho "não estava dando resultado". Me espancaram por três dias seguidos. Em um quarto escuro, me algemaram de braços estendidos. Ficava nessa posição, em pé, por 17 horas. Isso durou oito dias.
Quando acabou, me mandaram de volta para o escritório. O Philipe (Ferreira, o outro brasileiro resgatado de Mianmar) chegou nesse meio tempo. No trabalho, um dos tradutores nos dava palestras. Nos fazia repetir frases como "somos capazes" e "vamos dar o nosso melhor". Éramos obrigados a cantar músicas todos os dias antes de começar a trabalhar. Eram canções como It´s My Life, do Bon Jovi e Unstoppable, da Sia. E tinha que cantar bem, senão era motivo para baterem na gente.
Três pessoas que estavam conosco começaram a bolar um plano de fuga. Conseguiram entrar em contato com a ONG (Exodus Road) e planejar. No dia 9 de fevereiro, fugimos em sessenta pessoas ao mesmo tempo, correndo para fora dos dormitórios. O plano era subir um muro, escalar três montes, correr mais dois quilômetros e atravessar um rio, onde do outro lado estava a Tailândia.
Não consegui correr muito, me pegaram e me levaram para um quarto com outras três pessoas. Fui amarrado e espancado por duas vezes, até que, horas depois, chegou um militar do grupo Karen (o Exército Democrático Budista dos Karen, grupo de rebeldes budistas do Mianmar). Foi a primeira vez que vi um deles ali. Ele disse que ia tentar nos ajudar e, depois de uma noite, vieram nos resgatar.
Vários carros nos levaram para um abrigo e, no dia 15 de fevereiro, chegamos àTailândia. Voltamos para Bangkok e, depois de três dias, para o Brasil. Quero voltar a viajar um dia, mas estou com medo até de sair na rua. É ruim relembrar, mas contar pode ajudar outras pessoas, que podem ler e talvez deixem de passar por isso."
Fonte: O Globo